Linha Desportiva
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:: COLUNA DO MUNDO ::
Diálogos entrelaçados


Linha desportiva

1 – O Sporting está a estagiar durante uma semana no sul de Espanha, uma zona em que as temperaturas, no Verão, rondam diariamente os 40 e tal graus.
Conversa entre dois sportinguistas, numa esplanada lisboeta. Duas imperiais e um pires de tremoços na mesa, veleidade permitida, com muita compreensão da sua parte, pela troika, talvez daqui a uns meses já seja apenas uma imperial a dividir por dois...
- Epá, com um calor assim não seria mais aconselhável o Sporting ter feito o mesmo que o Benfica e o Porto fizeram, pegaram na trouxa e foram estagiar para a Suíça, junto àquele lago... não me lembro agora o nome, mas tudo tão fresquinho que suar até dá gosto?
- Está-se mesmo a ver que não percebes nada destas coisas. Os nossos jogadores não vão estranhar nada essas altíssimas temperaturas porque já estão acostumados aos ambientes escaldantes do Sá Pinto, aquilo, com ele, por vezes até faz lembrar uma panela de pressão a apitar...
- És capaz de ter razão.

2 – Na Foz, sentados, lado a lado, num banco, à torreira do sol, dois adeptos do FC Porto olhavam embevecidos o mar, calmo, convidativo ao mergulho. Nem uma pontinha de vento se fazia sentir.
Já tinham partilhado a leitura de um jornal desportivo, comprado a meias. O café, onde o liam, de borla, todas as manhãs, já fechara, a benemérita troika matara-lhe uma vida quase centenária.
- Olha lá, achas que o João Moutinho vai fazer birrinha, como fez no Sporting, se não for transferido para um clube estrangeiro?
O outro continuou a olhar o mar, deu até a sensação de não ter ouvido as palavras de preocupação do companheiro do emblema do dragão, mas ouvira.
- Epá, está-se mesmo a ver que, apesar de há tantos anos seres portista, ainda não conheces o Pinto da Costa.
- Ah! Visto por esse lado...
- E há outro? O Pinto da Costa é que sabe como é, o resto é paisagem!

3 – Dois benfiquistas deambulavam de um lado para o outro no Colombo, a olhar as montras – só a olhar, atenção –, saíam de um corredor e entravam noutro, subiam e desciam escadas rolantes, captavam, de nariz no ar, os cheiros gastronómicos, comida para todos os gostos e paladares que sai cada vez menos das cozinhas porque a clientela é cada vez menor, olhavam, com alguma frequência, para os seus relógios, aproximava-se a hora de se dirigirem para o Estádio da Luz, realizava-se daí a pouco o jogo Benfica-Figo & Resto do Mundo.
O diálogo:
- Tu leste aquela entrevista do Mantorras em que disse que teve de sair da Luz na mala de um táxi por causa de uma derrota nas Antas?
- Li. E não gostei.
- Não? Porquê?
- Falta de solidariedade.
- Falta de solidariedade?
- Exactamente. Mas não só. O Mantorras foi sempre um jogador muito querido dos adeptos do Benfica, várias vezes, com a equipa à rasca para ganhar, o Mantorras entrava a escassos minutos do fim e, manco, resolvia o problema ao Benfica. Ora, os outros jogadores do Benfica deviam...
- Deviam o quê?...
- Deviam tê-lo metido numa das malas dos seus carros, nunca o deviam ter deixado sozinho na mala de um táxi.
- Epá, se calhar o Mantorras não cabia nas malas dos carros deles...
- Não me lixes, pá. Julgas que os carros deles são Citroën C1? Foi só ciumeira, ciumeira! O Mantorras, a coxear, em dois minutos conseguia fazer o que os outros, com duas pernas sãs, não faziam em 80 e tal minutos.
- Mas o Mantorras vai ter agora a sua grande festa com a camisola do Benfica vestida...
- Só que o que eu queria era o Mantorras sem lesões, a dar-me outras, não estas, grandes festas! Mesmo que, uma vez por outra, tivesse de sair da Luz na mala do carro de um companheiro. Ou de um táxi, sei lá eu!
- Estou a perceber...

Linha política

1 – O Audi, topo de gama, de cor preta, vidros fumados, para em frente à Universidade. Quando o motorista se apresta para dar a volta ao veículo para abrir a porta ao ministro Relvas, já o ministro Relvas está no passeio, nervoso, a abotoar o casaco.
- O senhor ministro desculpe...
- Não há problema, eu é que estou com muita pressa, os afazeres e as responsabilidades são cada vez maiores, não posso perder um segundo.
- E o senhor ministro quer que eu fique aqui à espera do senhor ministro ou deseja marcar uma hora para vir buscar o senhor ministro.
- Ó Ezequiel, deixa o carro mesmo aqui onde ele está, isto é uma coisa de dez a quinze minutos, não mais, vou só tirar uma licenciatura.

2 – O espectáculo arrastava-se. Na sala, aqui e ali, já se vislumbravam bocejos, face ao adiantado da hora mas também devido ao escasso entusiasmo suscitado pela actuação dos artistas, todos eles com números já gastos por repetidas apresentações, realidade também resultante das nefastas medidas implementadas pela troika a Portugal para a área da criatividade, portanto sem alternativa que não seja a do recurso a velhas receitas de entretenimento.
Chegou a vez do ilusionista.
Disse boa noite. Colocou a varinha mágica em riste, tirou da cabeça a cartola. Com três toques nela, fez sair-lhe de dentro muitos lenços de cores variadas, atados uns nos outros, e depois uma pomba, a seguir mais outra, ambas branquíssimas.
Poucas palmas. E entediadas. Mais educação do que entusiasmo.
O ilusionista bate outra vez com a varinha mágica na cartola e, repentinamente, surpresa que dá um safanão na apatia geral instalada na sala, vozes em uníssono, e em súplica, gritam quando surgem as pontas de duas orelhas:
- Não! Não! Não! Outro coelho não!

3 – Portugal já está a sobreviver, para grande parcela da sua população, a pouco, pouco mais que a pão e água. Mas a troika, tão preocupada que está em ajudar os portugueses, agora quere-os – os que ainda fazer parte do milagre que é ter emprego – a trabalhar com salários abaixo dos 450 euros.
O diálogo entre duas mulheres, num mercado lisboeta, que tinham comprado o que os respectivos salários permitiram – dois pães e meia dúzia de fatias de torresmos:
- Ó vizinha, então já viu esta de esses gajos dos trocos...
- Da troika – rectificou a outra vizinha.
- Pois, dessa troika, agora querem que os portugueses ganhem abaixo do salário mínimo nacional. Já viu isto? Aonde é que vamos parar?
- Já vi, já. Olhe, vizinha, cá para mim eu até era capaz de aceitar essa medida...
- Aceitava? – Ripostou a outra, indignada.
- Claro. Mas tinha outra para lhe juntar: deixava-os vir até cá, depois não os deixava ir embora, e obrigava-os a viver aqui, não uma semana, não duas semanas, mas meses e meses, mesmo anos, como nós vivemos, a pão e torresmos. Garanto-lhe que as padarias e os vendedores de torresmos até iam gostar!

André Ricardo



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