Linha Desportiva
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:: COLUNA DO MUNDO ::


Opinião
 
A vida tem cada coisa...
por Mário Nóbrega



1 – Domingo passado, após o final do jogo entre Portugal e a Sérvia, de apuramento para o Europeu com palco em França, no próximo ano, quando me aprestava para ouvir Ilídio Vale fazer o seu comentário ao que se passara no relvado, durante os 90 minutos, uma vez que foi ele quem se sentou no banco do seleccionado luso, eis que vejo Fernando Santos sentar-se frente aos jornalistas para a realização da habitual conferência de imprensa. Fernando Santos, porquê? Mas ele não viu o jogo de um dos camarotes do Estádio da Luz, por estar a cumprir o castigo que lhe foi imposto pela FIFA? Fiz estas perguntas em voz alta, incapaz de segurar a minha incredulidade. E um amigo meu, à minha ilharga, disse, como que a responder às minhas interrogações: «Eu queria ver, caso Portugal tivesse perdido, se ele também ia à conferência de imprensa.» Talvez sim, talvez não, pois, não sei. O que eu sei é que Fernando Santos desrespeitou Ilídio Vale. Isso eu sei. Como também sei que, sendo seu amigo há longos anos, ainda ele não passava de um projecto de treinador, não esperava este seu comportamento. Há erros que, mais tarde ou mais cedo, se pagam caro. Talvez este seja um deles...

2 – Adorei ver o 107.º penteado de Cristiano Ronaldo, domingo, no Estádio da Luz. Julgo, aliás – e darei a mão à palmatória se estiver errado –, que muitos portugueses, quando se aprestam para ver um jogo do Real Madrid ou da Selecção Nacional, a primeira pergunta que fazem é: qual será hoje o penteado do Cristiano? Dizem-me que penteados assim – verdadeiras obras-prima só ao alcance de predestinados para o exercício desta actividade agora a deslizar na crista da onda – levam horas a ser executados. Para quem trabalha duas horas por dia e ganha o que ele ganha, esse é bem capaz de não ser um problema para o famosíssimo internacional português.

3 – Ainda no domingo, cerca de duas horas antes do pontapé de saída para o Portugal-Sérvia. Estava eu em ascensão numa das escadas rolantes do Oeiras Parque, quando, vá lá saber-se porquê, olhei para trás. Os meus olhos bateram no rosto de António Saraiva. Vou fazer-lhe duas perguntas, pensei. Estas: como é que alguém que foi membro de uma Comissão de Trabalhadores da Lisnave é hoje presidente de uma associação patronal chamada Confederação da Indústria Portuguesa (CIP)? O que é que, entretanto, perdeu pelo caminho? Mas, depois, não as fiz. E, depois, arrependi-me de as não ter feito.

4 – Domingo não houve apenas o Portugal-Sérvia. Houve também, por exemplo, eleições na Madeira. Já o dia se despedia para dar lugar ao seguinte, segunda-feira, quando comecei a ouvir – e a ver – os comentários dos partidos concorrentes aos resultados saídos das urnas. O PSD estava satisfeito porque alcançou a maioria absoluta; o CDS-PP estava satisfeito porque elegeu sete deputados; o JPP estava satisfeito porque elegeu cinco; o BE estava satisfeito porque elegeu dois; a CDU estava satisfeita porque aumentou o número de votantes; o PND estava satisfeito porque tem também uma voz na assembleia regional; a coligação PS-PTP-PAN é que não, porque fracassou em toda a linha. Mas quem verdadeiramente ganhou estas eleições foi a abstenção, ao fixar-se em 50,28%. Só que não lhes interessa falar – muito menos analisar principalmente em profundidade – sobre aquela que é mais uma perigosa derrota da democracia. E enquanto assim continuarmos...
 
Estoril Praia - Ano Histórico


Preâmbulo: Faço este texto, na qualidade de sócio do clube.

O ano de 2014 foi absolutamente tremendo para todo o universo do Grupo Desportivo Estoril Praia. 12 meses marcados por vitórias inéditas, obtenção de records absolutos e de inovações aguardadas há muito por muitos Estorilistas. Torna-se deste modo e paradoxalmente fácil e complicado simultaneamente escrever e falar de um ano memorável, mas que nos deixa desafios árduos e estimulantes para 2015.

Indo às vitórias históricas da equipa sénior:
Porto 0 vs 1 Estoril a 22 de Fevereiro com um golo de Evandro aos 78 minutos
Sporting 0 vs 1 Estoril a 11 de Maio, igualmente com um golo de Evandro aos 5 minutos;
O nosso clube nunca tinha ganho fora para o Campeonato Nacional ao Porto e ao Sporting. Estas foram as primeiras de várias vitórias, que faremos nestes estádios, nos próximos anos.
A nível de pontuação, foi batido o record de pontos relativo e absoluto do clube. O record de pontos relativo ( traduzindo a pontuação de 2 para 3 pontos, era de 53, remontando aos anos 40), sendo que o record de pontos absoluto era de 45. Brilhantemente a equipa em 2013/2014 almejou os 54 pontos.
Acredito e com uma forte convicção pessoal de que esta marca possa ser superada num futuro muito próximo, lançando esse repto à actual equipa técnica e plantel, que já mostraram grande competência.

No Ranking total de pontos, o chamado “Campeonato dos Campeonatos”, o Estoril subiu do 24.º lugar ocupado em 2012, para o 14.º lugar, encontrando-se a apenas 3 pontos do Salgueiros, clube que ocupa a 13.ª posição. A vitória 200 em jogos da Liga foi também alcançada, aquando da recepção ao Nacional da Madeira em Setembro.

Nas competições europeias, o percurso em 2014 foi superior ao realizado em 2013, tendo feito o nosso clube mais dois pontos na fase de grupos, mais golos e alcançado a primeira vitória na fase de grupos (a quarta a nível europeu, no nosso historial).
A vitória a 2 de Outubro, no Estádio António Coimbra da Mota, sobre o Panathinaikos, com golos de Kléber e Diogo Amado, constitui um dos momentos mais altos do ano.

Destaco ainda a recepção à selecção do Irão em jogo de carácter particular. Entendo que é sempre prestigiante este tipo de encontros.

Nas camadas jovens há que destacar duas vitórias históricas, frente ao Sporting Clube de Portugal. Os juniores lograram vencer pela primeira vez em Alcochete neste escalão e os iniciados na Amoreira, para o Campeonato Nacional.
No Futebol feminino, a História não passou ao lado, tendo a equipa sénior, ganho pela primeira vez dois jogos na Taça de Portugal e tendo sido criada a inédita equipa de sub-17.

Este ano ficou marcado por uma viragem incremento do ecletismo no clube, com a criação de 5 novas modalidades:
- Futsal, com brilhantes resultados desportivos, sendo os Séniores líderes isolados da 1.ª Divisão Distrital e os Juniores com excelentes prestações, abrilhantadas pela conquista do Torneio de Almonsor na pré-época;
- Caça Submarina, em que um atleta do Estoril, André Domingues, se sagrou vice-campeão mundial pela selecção nacional, em Campeonato realizado no Perú;
- Futevolei, em que a nossa dupla alcançou um brilhante 4.º lugar no circuito nacional e ganhou vários torneios, estando presente diversas vezes em Espanha;
- Futebol de Praia, com uma digna participação no Campeonato Distrital e Nacional;
- Atletismo, em que o nosso núcleo de atletas tem honrado o clube, em todas as provas em que participa.

É importante deixar uma palavra à equipa sénior de Basquetebol, que todos os dias luta briosamente pelo nosso símbolo e que estão a evoluir com muito afinco. Esta secção existe desde 1982 no nosso clube e merece ser acarinhada por todos.

Por fim destaco também a edição do hino do clube, a criação da mascote e a relação próxima com as nossas filiais, que estiveram presentes (presencialmente ou através de mensagens no nosso aniversário). O Grupo Desportivo Arouce Praia da Lousã, o Estoril Futebol Clube de Cabo Verde e o Estrela Negra de Bolama da Guiné-Bissau, são uma prova da grandeza do nosso clube!

Uma nota especial para o triste desaparecimento do Senhor Sebastião Caixinha, alguém que amou o nosso clube de forma arrepiante.

VIVA O GDEP!!!!

João Rocha

 
Obviamente...


1 – Obviamente que a Alemanha ganhou justamente o Mundial. Apresentou-se no Brasil como a formação mais coesa, mais dinâmica, mais objectiva e, pasme-se, mais criativa. E fechou a sua participação com um golo de recorte técnico a condizer com a importância da competição.

2 – Obviamente que a Argentina foi um digno vencido. Fez da organização defensiva a sua principal arma para chegar onde chegou e as cores do título mundial até poderiam ser as suas se tem podido contar, na final, com Dí Maria e, principalmente, com um Messi pelo menos a 50% do seu rendimento normal. Como assim não aconteceu...

3 - Obviamente que a Holanda fez tudo para ocupar o terceiro lugar do pódio deste Mundial. Mereceu-o. Como, aliás, o Brasil fez tudo para ter ficado longe do jogo de atribuição do terceiro e quarto lugares. Esta selecção canarinha, na verdade, foi, em todos os aspectos, mas mesmo todos, uma selecção medíocre. Se não tem havido umas arbitragens habilidosas em alguns dos seus jogos...

4 – Obviamente que a atribuição a Messi do troféu de melhor jogador do mundial – até ele foi incapaz de disfarçar o seu incómodo – não é mais que outra demonstração da hipocrisia e do jogo de interesses sujos que minam o futebol a nível planetário. Queriam distinguir um jogador argentino? Então escolhessem Mascherano, que andou com a selecção das pampas ao colo durante toda a competição! Isto, claro, para não falar em Robben ou James Rodriguez...

5 – Obviamente, se Luiz Felipe Scolari tiver um mínimo de respeito pela sua palavra, o que eu, sinceramente, duvido, só tem um caminho a seguir, de acordo com aquilo que disse há cerca de dois anos, quando o Brasil começou com os seus jogos de preparação para este mundial, ou seja, que iria para o exílio caso o seleccionado canarinho não fosse campeão do mundo no seu próprio país. Gostando eu que o enganador das bandeirinhas não esteja a pensar em Portugal, até era capaz de o aconselhar a optar pelo país a quem foi atribuído o mundial de 2022. Assim, os brasileiros sempre poderiam dizer: «Ó Felipão, vai te Catar!»

Mas o Mundial é já passado, os olhos de todo o mundo começam agora a virar a sua atenção para os clubes...

1 – Benfica, Sporting e FC Porto – é a ordem da classificação no campeonato da época passada – estão a contratar jogadores estrangeiros às pazadas. E para onde vão os jogadores portugueses que saíram há relativamente pouco tempo da formação ou os que estão próximo de sair dela? Obviamente, não está longe o dia em que o seleccionador nacional não tenha de recorrer praticamente a jogadores naturalizados para formar a equipa das quinas.

2 – Estou farto de dar voltas à cabeça e ainda não consegui perceber o que se passou com a situação de Oblak, partindo do princípio que, havendo contratos estabelecidos, são para ser respeitados pelas duas partes. Aliás, a minha incompreensão estende-se às verbas envolvidas na transferência de Garay. Mas, obviamente, admito poder tratar-se de um deficiente funcionamento dos meus neurónios.

Alberto Costa

 
Hannibal Suárez


Estranharão os que fazem o favor de ler as minhas crónicas sobre o Mundial não começar esta pela selecção portuguesa. Eu explico-me: a dentada, que já é a terceira que dá na sua carreira futebolística, julgo ser importante não esquecer este facto, de Luis Suárez a Chielini, justificará, infelizmente, esta minha opção.

Não chegava o dramatismo da atitude do notável avançado da selecção celeste, devidamente punido pela FIFA, castigo fortemente criticado por certos comentadores televisivos que me deixam sérias dúvidas – não só neste caso - quanto à sua lucidez, como ainda tivemos a patética recepção ao jogador no seu país. Aqueles milhares que o vangloriaram nas ruas da capital uruguaia nem inteligência têm para perceber que uma desabrida dentada amputou seriamente as aspirações da selecção comandada por Oscar Tabarez neste Mundial.

Além do mais, e perigosamente, esta gente, que não é mais que a expressão de milhões espalhados por esse mundo fora que se deixam embriagar, muitas vezes até à inconsciência, pelo futebol, legitimou, com o seu patético comportamento, as dentadas dentro das quatro linhas. Eu acho, sinceramente o digo, que o futebol, quantas vezes indevidamente utilizado para esconder coisas, essas sim, deveras importantes para a vida de todos nós, não merecia ser enxovalhado como o foi nas últimas horas.

E pronto, chegou a vez de falar da selecção de Portugal. Mas porque muito já foi dito sobre o que fez e, principalmente, deixou por fazer neste Mundial da nossa desilusão, apenas digo que uma representação nacional que não consegue apurar-se até quando lhe oferecem, de mão beijada, quatro golos, não merece, na verdade, permanecer numa competição onde está a elite do futebol mundial.

A competição reabre hoje – escrevo este texto sexta-feira, à noite – com a realização dos oitavos de final. Não arrisco a falar de favoritos, até porque, certamente não direi uma novidade a quem faz o favor de me ler, há demasiados interesses em jogo…, fora das quatro linhas, para além de entender que pouco percebo de futebol quando vejo e leio os comentários e os artigos que enxamam a nossa comunicação social, mas, mesmo assim, atrevo-me a chamar a atenção para a selecção da Bélgica...

Alberto Costa

 
O rei vai nu


Portugal continua, perigosamente, a ser um país adiado, e o futebol, que faz parte, por direito próprio, da sua sociedade, mantém-se, lamentavelmente, desencontrado dos caminhos do futuro. É preciso gritar, e com frontalidade, sem receios de ofender os que se julgam poderosos mas tem pés de barro, que o rei vai nu.

Terminou o comprometedor jogo com a Alemanha e, percebeu-se logo, os agora pomposamente chamados fazedores de opinião – jornalistas comprometidos com interesses que nada têm a ver com a sua profissão e treinadores no desemprego que viram comentadores e fazem malabarismos opinativos por não quererem tecer críticas que lhes possam queimar oportunidades de regressar ao trabalho na suas profissões – iam agarrar-se, como náufrago a boia em mar encapelado, ao trabalho do árbitro.

É, afinal de contas, o costume. Já se sabe o que a casa gasta. Optam oportunisticamente pelo falar do superficial em detrimento do debate sobre questões de fundo...
De fundo? Sim, de fundo. Como, por exemplo, saber-se a razão pela qual Paulo Bento escolheu para titular o pior – neste momento – dos três guarda-redes que tem no Brasil.

Saber-se, ainda, o que lhe passou pela cabeça para chamar Pepe à titularidade quando não foi utilizado nos três jogos de preparação e Neto dera boas indicações nesses mesmos compromissos. Mais, sabendo – infelizmente o seu historial está aí para o confirmar –, que Pepe facilmente envereda por atitudes claramente à margem da lei. Mas também, já agora, conhecer-se a razão pela qual deixou William Carvalho no banco e apostou num Raul Meireles que já devia figurar num qualquer museu de raças humanas.

Só que, atenção, não é tudo, porque ainda temos a famigerada história de Cristiano Ronaldo. Viu-se, mais uma vez, e infelizmente para o jogador e para os objectivos de Portugal, que não está em condições físicas plenas para ser utilizado. Mas Paulo Bento entende que os patrocinadores falam mais alto e, como tal, aí temos o melhor jogador do mundo na infeliz e imerecida condição de turista no Brasil.

Quanto ao resto que se tem passado neste Mundial, nomeadamente ao comportamento das outras selecções, julgo ser nota de registo o esperado olhos em bico do japonês que arbitrou o Brasil-Croácia. Alguém, por mais louco que seja, imagina os canarinhos, no seu próprio país, não serem campeões do mundo? A FIFA recebeu milhões de retorno de um Brasil que entende não os dever gastar na construção de uma nação na qual os desequilíbrios sociais deixem de ser tão miseravelmente gritantes, pelo que, como contrapartida, o caquéctico organismo sediado em Zurique tem de criar, mesmo camufladamente, condições para o ambicionado troféu ficar nas mãos de quem organizou a competição.

Dito de outra maneira, se calhar com alguma crueldade, mas sem deixar de ser pertinente, julgo: todas as selecções presentes neste mundial têm para desempenhar apenas o papel de figurantes. A estrela da companhia há muito que está encontrada.

Alberto Costa

 
Qual o perfil
do treinador super-herói?



Há algum tempo li um pequeno texto sobre esta temática. A pergunta era semelhante. Afirmava que não existiam treinadores ideais, muito menos um perfil único de treinador. O tipo ‘super-homem’ que sabe tudo e nada o perturba não passaria de um modelo ou produto imaginário criado e alimentado por alguns agentes desportivos e sociais.

Não posso estar mais de acordo. Ainda se mantêm algumas ideias muito cimentadas que alguns treinadores ganham tudo e em todo o lado. Que alguns líderes dariam cartas em diversos locais empresariais e sociais. Uma certa ideia que ganhariam com várias equipas. E com quaisquer atletas independentemente dos seus contextos e adversários.

Errado! O treinador ideal para tudo não existe. Também não existem os líderes para tudo e qualquer coisa. Muito menos os gestores. Existem um conjunto de comportamentos e características intra e interpessoais que aumentam a capacidade da pessoa que lidera atingir com mais eficácia os objectivos (seus e os colectivos). Algumas empresas sabem-no bem e levam isso à letra, substituindo por vezes um líder com excelente capacidade de concretizar objectivos, que alcançou muito e fez estar uma equipa ou a empresa onde ela está.

O treinador sobrevive pelos resultados, por isso, raramente um treinador que atinge resultados é afastado (raríssimos mesmo). Pode duvidar-se do seu valor, contestar-se métodos e a sua própria liderança, mas ele respira e vive dos resultados. Outros – por muita qualidade que queiramos atribuir-lhe – não sobrevivem à falta de resultados e são afastados. Quem os afasta não liga muito ao contexto, adversários, especificidades individuais da equipa. Sai e pronto.

Há uma certa corrente ideológica que coloca nos píncaros alguns treinadores. Poucos analisam as condições em que os mesmos concretizam as suas vitórias. Na verdade ganham mais aqueles que têm melhores condições dos que têm menos condições. Aos que têm muitas condições e perdem chamamos-lhes incompetentes. Por alguma razão lhes chamamos surpresas aos que não se esperava ganhar.

Não se pode pedir ao adepto que analise como e onde ganham e como se perde. Mas aos dirigentes sim. Mais do que aos dirigentes…os primeiros que devem analisar como e onde ganham são os próprios Treinadores!

O treinador ideal para tudo não existe. Mas ele próprio gostaria que existisse. Numa certa fase de afirmação, os treinadores gostariam que pudessem vencer em muitos contextos. Contexto é mais do que contra alguns adversários e em diversos escalões etários.

O super-treinador e o contexto significam que possuem todas as competências necessárias. E que nas mesmas são eficientes. Que há um grande equilíbrio pela positiva no que diz respeito às competências técnicas na tarefa de treinar e nas capacidades comportamentais tais como escuta activa, liderança, dar feedback, empatia, liderança, etc.

Para o ‘adepto’ mais atento, sabemos que são raros. Muito raros. Os mesmos deviam ser alvo de análises às suas competências comunicacionais, capacidade de foco, motivação, definição de objectivos e de liderança. Arrisco-me a dizer que felizmente já há um grande naipe nas mais diversas modalidades de excelentes treinadores que englobam a variante do treino técnico, táctico e físico, ou englobam nas suas equipas técnicas especialistas na área. Na vertente mais comportamental…são ainda poucos. Quer os que dominam de forma muito eficiente quer os que se rodeiam.

Rui Lança

 
Eu gostava de falar...


Caro leitor.

– Eu gostava de falar sobre as lamentáveis declarações do juiz Herculano Lima, presidente do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, proferidas em comentário ao castigo aplicado a Jorge Jesus, devido a afirmações deste treinador após o Benfica-FC Porto da época passada, mas não consigo...

– Eu gostava de falar sobre a presença do Sporting numa lista de incumpridores financeiros, emanada da UEFA, até porque as explicações dos dirigentes do Sporting não me parecem convincentes, ou seja, não conseguem provar-me, preto no branco, que a razão está do lado do clube, mas não consigo...

– Eu gostava de falar das condenações por fuga ao Fisco de João Pinto e Luís Duque e do estranho silêncio da Federação Portuguesa de Futebol e do Sporting sobre estas penas – os dirigentes leoninos que falaram foram evasivos, isto é, falaram sem dizer nada –, mas não consigo...

– Eu gostava de falar da Selecção Nacional e das suas merecidas vitórias, conseguidas através de exibições que me deixam preocupado para os seus futuros compromissos, nomeadamente o próximo, com a Rússia, mas não consigo...

– Eu gostava de falar da famigerada tristeza de Cristiano Ronaldo e da vergonhosa proposta de contrato que o Real Madrid lhe fez, uma afronta a um país a viver uma crise económica e financeira gravíssima, mas não consigo...

Caro leitor,
Não consigo fazê-lo porque estou em estado de choque desde a última comunicação ao País de um primeiro-ministro que criminosamente o injectou com células cancerígenas, deixando-o prostrado no leito da morte.

André Ricardo

 
Aonde é que isto vai parar?


Linha desportiva

1 – Cristiano Ronaldo anda triste. Tão triste que em Espanha já lhe chamam o Tristiano Ronaldo. Se eu ganhasse um milhão de euros por mês, ainda por cima a trabalhar três horas – às vezes nem isso – por dia, eu não andava triste, eu andava inconsolável. Faço minhas as palavras de Miguel Sousa Tavares: isto é uma ofensa a todos os trabalhadores.

2 – Como vai ser o campeonato de Benfica e FC Porto sem Javi Garcia, Witsel e Hulk? Confesso que estou muito curioso. E sabendo-se que, volta não volta, Carlos Martins está lesionado, então no caso do Benfica mais curioso fico. Muito estranho, sem dúvida – até por ser um caso que se arrasta no tempo –, esta fragilidade de Carlos Martins relativamente às lesões...

3 – Lembra-se o leitor das declarações de Jorge Jesus após o Benfica-FC Porto da época passada, quando o campeão nacional foi ganhar à Luz por 2-3 com um golo de Maicon em posição irregular? Pois ao fim de cento e oitenta dias o treinador do Benfica conheceu finalmente o castigo que lhe foi aplicado pelo Conselho de Disciplina da FPF: quinze dias. Mas, mais espectacular, vai cumpri-lo agora, com o campeonato parado devido aos dois compromissos da Selecção Nacional. Uma vergonha!

4 – André Villas Boas não teve vida fácil no Chelsea. Parece que André Villas Boas não vai ter vida fácil no Tottenham. Cumpridas três jornadas no campeonato inglês, o clube londrino regista uma derrota fora e dois empates em casa. Nenhum destes resultados aconteceu frente a um candidato ao título...

Linha política

1 – Um dos elementos da Troika foi assaltado quando viajava de eléctrico, em Lisboa, quem sabe se para conhecer mais ao pormenor uma parte da população que anda as esmifrar com as suas medidas de austeridade. E perante este caso eu lembrei-me do ditado que diz: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Mais, eu até acho que aquele senhor que está em Belém sentado no cadeirão presidencial devia, no próximo 10 de Junho, condecorar este ladrão. Pois se ele até já condecorou dois pides!

2 – A OCDE entende que há professores a mais em Portugal. Pois eu acho que Portugal, para ter alunos como o Relvas, nem precisa de professores.

3 – Alberto da Ponte foi administrador da Central de Cervejas e agora foi nomeado pelo Governo para administrador da RTP. Será que Pedro Passos Coelho e Miguel Relvas querem engarrafar o canal público? Eu nem pretendo colocar em causa a competência de Alberto da Ponte, mas lá que não condiz a bota com a perdigota, lá isso não. É um vale tudo vilanagem!

4 – O Governo, pela voz do PSD, ameaça com novo aumento do IRS. O CDS, pela voz de Paulo Portas – e não só –, garantiu que não admitia que os portugueses fossem mais castigados com impostos. Em que ficamos? Até quando o fascínio pelo poder vai aguentar esta parceria partidária num Governo que está a pôr Portugal nas ruas da amargura?

André Ricardo

 
Desculpem o incómodo


Linha desportiva

1 – Era inevitável. Depois de o FC Porto ter goleado (4-0) o V. Guimarães, alguma coisa tinha de acontecer no Bonfim. Amoreirinha expulso logo aos 8 minutos, e aos 14 minutos, o primeiro golo benfiquista, com Melgarejo, em fora-de-jogo (não há deslocações de metros ou de milímetros, há posições irregulares e acabou-se a argumentação da treta), a servir Rodrigo de modo a este limitar-se a empurrar a bola para o fundo da baliza. Eu só gostava de saber se, em vez de Amoreirinha tem sido Luisão, Javi Garcia ou Maxi Pereira, por exemplo, a ter idêntico comportamento, no mesmo período de jogo, Jorge Sousa se mostraria tão zeloso no cumprimento da lei disciplinar.

2 – Não é caso único, mas é, sem dúvida, pelo menos para mim, o mais evidente. E lamentável. Nas duas primeiras jornadas, o Benfica, que em ambas fez três substituições, só utilizou um jogador português: Carlos Martins. E não foi a titular. Para certos dirigentes e treinadores vale tudo para se ser campeão. O futuro do futebol português? Que se lixe o futebol português! É o que eles pensam, não tenho, também neste caso, qualquer dúvida.

3 – «Não estamos fortes, estamos muito fortes!», garantiu Sá Pinto, após o Sporting ter sido derrotado em Alvalade pelo Rio Ave, caso único em 20 anos de jogos entre estes dois emblemas no reduto leonino. Das duas uma, ou Sá Pinto está a gozar com a alma sportinguista, o que, em primeira instância, justifica o seu despedimento, ou então perdeu, por completo, a noção das realidades. E se for esta última hipótese a prevalecer, então o mais aconselhável seria, para além do adeus a Alvalade, recorrer aos cuidados de um psicólogo ou mesmo de um psiquiatra. O caso não é para menos. Até por o Sporting se arriscar, com todos os perigos daí inerentes, nomeadamente o financeiro, a dizer adeus ao título no primeiro terço do campeonato.

4 – Os agentes do branqueamento – e são muitos, muitos... – devem estar, neste momento, satisfeitos com a sua comprometedora actividade. O incidente com Luisão frente ao Fortuna Dusseldorf está a cair paulatinamente no esquecimento. Mas eu gostava de saber qual a justificação, sabendo eu que a argumentação do Benfica para este lamentável caso foi sempre a de não ter havido qualquer caso, uma vez que tudo não passaria de uma orquestração do árbitro que foi parar ao hospital, para o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, ter ido à Alemanha conversar com o seu homólogo do Fortuna Dusseldorf. Qual a razão para estas palmadinhas nas costas se na Luz toda a gente está de consciência tranquila?

5 – Já agora. O que é que o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, foi fazer à Alemanha na companhia de Luís Filipe Vieira? Ter-se-á esquecido – ou talvez não... – que é o Conselho de Disciplina do órgão a que preside que tem o inquérito disciplinar de Luisão em análise? E lá volto eu ao mesmo: à mulher de César não lhe bastava ser séria, tinha também de o parecer.

Linha política

1 – O Ministério Público quer uns documentos do processo de compra dos submarinos, mas ninguém, no Governo, sabe desses documentos. Eu acho que, dizendo eles respeito a submarinos, podem estar submersos numa qualquer gaveta de uma qualquer secretária de um qualquer ministério. E, muito provavelmente, sabendo eu como age a gente que passa pela governação deste País, estarão a tal profundidade que já não dá para regressarem à tona de água.

2 – Rui Veloso, numa entrevista a um dos canais televisivos, fez duas afirmações sobre a governação portuguesa. A primeira: «Só falta levarem-nos as calças mesmo com os bolsos vazios.»; a segunda: «Há criminosos que deviam ser julgados e condenados.» Eu gostava de ouvir estas acusações na Assembleia da República. Gostava... mas nunca ouvirei. Porque, no Parlamento, comem todos da mesma gamela. Uns rapam mais, outros rapam menos, uns rapam mais às claras, outros rapam mais às escondidas, por isso, importante, para eles, é o tachinho. E o que está dentro dele, naturalmente.

3 – Estou a escrever esta opinião no dia em que os vampiros se apresentam mais uma vez em Portugal. E sei, olá se sei, que os portugueses vão ficar mais uma vez com menos sangue a correr-lhes nas veias. Ao que este País chegou!

André Ricardo

 
Deviam ter vergonha!


1 – Luisão agrediu, com uma peitada, o árbitro Christian Fischer, no jogo particular entre o Fortuna Dusseldorf e o Benfica, portanto mente quando diz que nada de anormal se registou ao minuto 39. António Carraça, director para o futebol do Benfica, fez uma argumentação para este acto de indisciplina praticamente defendendo que foi o árbitro o agressor e o futebolista o agredido. Jorge Jesus diz que Luisão «adoptou uma posição de grande capitão, agindo de acordo com o código em vigor no clube.» Uma vergonha, tudo isto. E quem não diz nada é Luís Filipe Vieira.

2 – Uma vergonha tem sido também o comportamento de certa comunicação social, porque tem, a todo o custo, procurado branquear o lamentável comportamento de Luisão em Dusseldorf. Não é por acaso que, hoje por hoje, são muito mais os jornaleiros que os jornalistas existentes nas redacções de canais televisivos, jornais e rádios. E aqui continuaria a tomar esta posição se em vez do Benfica fosse o FC Porto ou o Sporting que estivessem envolvidos em acto semelhante.

3 – O campeonato começa já no próximo fim-de-semana e os três grandes, mais o Sporting de Braga, continuam a não convencer-me com o futebol que estão a exibir. No FC Porto e no Benfica, Vítor Pereira e Jorge Jesus já estão com o seu espaço de manobra muito reduzido, e quanto ao Sporting, olhando para o seu plantel, um dos melhores, senão mesmo o melhor dos últimos dez anos, parece-me um prato gastronómico com excelente apresentação, mas quando começamos a tomar-lhe o gosto damos pela falta do indispensável tempero. E o tempero, neste caso, é o treinador.

4 – Os Jogos Olímpicos de Londres tiveram uma cerimónia de encerramento ao nível da cerimónia de abertura. Soberba! Na capital inglesa houve heróis vencedores e heróis vencidos. Houve lágrimas de alegria e lágrimas de tristeza. Tem sido, afinal, esta a história de todas as Olimpíadas. E assim continuará a ser.

5 – São não sei quantos clubes interessados no Hulk, são não sei quantos clubes interessados no João Moutinho, são não sei quantos clubes interessados no Witsel, e o que eu sei é que estamos já a meio do mês de Agosto e nos cofres do FC Porto e do Benfica ainda não entrou um cêntimo.

André Ricardo

 
E o respeito onde está?


1 – Depois da goleada sofrida pelo Real Madrid na Luz, a qual deixou embevecida certa comunicação social, eu acho que José Mourinho merecia ser distinguido com a Águia de Ouro. Agora falando sério, melhor, escrevendo sério, eu acho que o Real Madrid, ao apresentar-se para o jogo da Eusébio Cup com a sua terceira ou quarta equipa, desrespeitou aquele foi um dos maiores futebolistas mundiais de sempre. Mas à comunicação social que costuma andar com o Benfica ao colo não interessava, como é evidente, analisar por tal prisma esta opção do campeão espanhol.

2 – Na marcação de grandes penalidades para encontrar um vencedor do jogo Valência-FC Porto, João Moutinho voltou a não ter êxito. E, a este propósito, regresso ao que aqui deixei lavrado após a eliminação de Portugal frente à Espanha, nas meias-finais do Europeu: Paulo Bento não tinha com ele uma estatística sobre os castigos máximos falhados por João Moutinho ao serviço do Sporting e do FC Porto. Se tivesse, quem sabe, talvez o nome Portugal fizesse parte da lista de vencedores da prova máxima europeia para representações nacionais.

3 – O Sporting contratou Viola. E pelo que já se lhe viu durante a pré-temporada, bem precisam os leões de uma viola afinada para a sua posição mais adiantada no terreno.

4 – O que se passou com a ordem da classificação na ginástica deixou uma nódoa nos Jogos Olímpicos que nem o mais eficaz detergente a conseguirá disfarçar, quanto mais apagar. O Japão ficou em quarto lugar, apresentou um recurso em relação à nota de Kohel Uchimura no cavalo com arções, o corpo de juízes voltou com a sua decisão atrás, subiu-lhe a nota, a Grã-Bretanha devolveu a medalha de prata e recebeu a de bronze, e a Ucrânia, sem querer acreditar no que se estava a passar, devolveu a medalha de bronze e regressou a casa de mãos vazias. Uma vergonha!

5 – Quanto à presença de Portugal em Londres, Mário Santos, chefe da missão olímpica nacional, encara os resultados dos atletas portugueses com «normalidade.» Se assim é... Pelo meu lado, não me esqueço do que Carlos Lopes afirmou quando ainda competia: «Para mim, o segundo lugar é o primeiro dos últimos.» Mais palavras para quê?

André Ricardo

 
Que raio de mundo este


Linha desportiva

1 – Sempre detestei – embora saiba que há novas formas, e mais sofisticadas, de escravatura – que se diga ou escreva que o futebolista A ou B foi vendido ou está em vias disso. Um futebolista não é mercadoria, é um cidadão com plenos direitos e deveres, o que se vende, por conseguinte, são os direitos desportivos dos futebolistas. Vem isto a propósito de os clubes portugueses trabalharem mais ou menos para o boneco, neste período de preparação para a próxima época, porque estando os treinadores a definir as suas equipas, há futebolistas que podem, de um dia para o outro, rumar a outros emblemas. Veja o caso agora de Matías Fernández. Sá Pinto estava, de certeza, a contar com o chileno como peça fundamental na organização ofensiva dos leões, e agora Matías Fernández já está de malas feitas para se transferir para a Fiorentina. Mas se, por qualquer motivo, a temporada não correr bem, a factura do insucesso será sempre paga pelo treinador. Não sei se estou a fazer-me entender...

2 – André Villas Boas tem toda a razão para estar exasperado. Modric não respeitou a sua entidade patronal, com a qual, aliás, renovou contrato na época passada, passando a auferir um salário mais principesco do que o anterior, porque recusou-se a integrar a comitiva do Tottenham para os Estados Unidos com o objectivo de forçar a sua saída para o Real Madrid. Recordo-me do caso que envolveu Ashley Cole quando teve o mesmo procedimento para sair do Arsenal para o Chelsea. E só por mero acaso, certamente não pode haver aqui uma explicação razoável, é que José Mourinho está envolvido nestas duas situações. Pois...

3 – Vão começar os Jogos Olímpicos mais bélicos da Era Moderna. Mais que uma cidade vigiada, Londres é uma cidade sitiada. Podem argumentar – e eu aceito essa argumentação – que, face ao terrorismo internacional, mais vale prevenir do que remediar. Mas é profundamente lamentável que a capital – e seus arredores – de Inglaterra se veja obrigada a transformar-se num verdadeiro palco de guerra. Que trágica mudança está a destruir o mundo...

Linha política

1 – Ao discursar para militantes do aparelho do partido – só podia ser –, quando abordava as medidas de austeridade do Governo que estão a levar a maioria dos portugueses à miséria, Pedro Passos Coelho afirmou, uma vez mais com um sorriso que mais parece um perigoso esgar, que se está a «lixar» para as eleições. Bom seria que os portugueses, em próximos actos eleitorais, não tivessem memória curta e se lixassem para Pedro Passos Coelho e o PSD.

2 – Ainda Pedro Passos Coelho. O primeiro-ministro, também a propósito da austeridade, afirmou que não podemos pedir dinheiro emprestado a um amigo, esse amigo ajuda-nos, e depois, quando entra num restaurante caro, esse amigo dá de caras connosco. Com lamentável hipocrisia, Pedro Passos Coelho esquece-se que os portugueses não querem frequentar restaurantes caros, o que já só querem é ter comida na mesa.

3 – Numa carta dirigida aos militantes do CDS/PP, Paulo Portas, a propósito da próxima discussão do Orçamento de Estado, dirigiu-se aos partidos do «arco da governabilidade». Tão bonita esta fraseologia. Parto do princípio que o actual ministro dos Negócios Estrangeiros se referia aos partidos que têm desgovernado Portugal desde as primeiras eleições legislativas pós-25 de Abril. E, neste caso, seria igualmente bom que os portugueses, para o bem de Portugal, não tivessem a memória curta quando chamados novamente a meter o seu voto na urna.

4- Agora entrou por Portugal dentro um relatório da OCDE. Quer o congelamento do ordenado mínimo nacional, quer a redução dos salários, quer o fim da negociação da contratação colectiva para o trabalho, quer o aumento do IMI, quer... quer... quer... em suma, é o capitalismo selvagem a impor aos portugueses o comunismo chinês. E Pedro Passos Coelho, claro, vai dizendo que sim.

André Ricardo

 
Diálogos entrelaçados


Linha desportiva

1 – O Sporting está a estagiar durante uma semana no sul de Espanha, uma zona em que as temperaturas, no Verão, rondam diariamente os 40 e tal graus.
Conversa entre dois sportinguistas, numa esplanada lisboeta. Duas imperiais e um pires de tremoços na mesa, veleidade permitida, com muita compreensão da sua parte, pela troika, talvez daqui a uns meses já seja apenas uma imperial a dividir por dois...
- Epá, com um calor assim não seria mais aconselhável o Sporting ter feito o mesmo que o Benfica e o Porto fizeram, pegaram na trouxa e foram estagiar para a Suíça, junto àquele lago... não me lembro agora o nome, mas tudo tão fresquinho que suar até dá gosto?
- Está-se mesmo a ver que não percebes nada destas coisas. Os nossos jogadores não vão estranhar nada essas altíssimas temperaturas porque já estão acostumados aos ambientes escaldantes do Sá Pinto, aquilo, com ele, por vezes até faz lembrar uma panela de pressão a apitar...
- És capaz de ter razão.

2 – Na Foz, sentados, lado a lado, num banco, à torreira do sol, dois adeptos do FC Porto olhavam embevecidos o mar, calmo, convidativo ao mergulho. Nem uma pontinha de vento se fazia sentir.
Já tinham partilhado a leitura de um jornal desportivo, comprado a meias. O café, onde o liam, de borla, todas as manhãs, já fechara, a benemérita troika matara-lhe uma vida quase centenária.
- Olha lá, achas que o João Moutinho vai fazer birrinha, como fez no Sporting, se não for transferido para um clube estrangeiro?
O outro continuou a olhar o mar, deu até a sensação de não ter ouvido as palavras de preocupação do companheiro do emblema do dragão, mas ouvira.
- Epá, está-se mesmo a ver que, apesar de há tantos anos seres portista, ainda não conheces o Pinto da Costa.
- Ah! Visto por esse lado...
- E há outro? O Pinto da Costa é que sabe como é, o resto é paisagem!

3 – Dois benfiquistas deambulavam de um lado para o outro no Colombo, a olhar as montras – só a olhar, atenção –, saíam de um corredor e entravam noutro, subiam e desciam escadas rolantes, captavam, de nariz no ar, os cheiros gastronómicos, comida para todos os gostos e paladares que sai cada vez menos das cozinhas porque a clientela é cada vez menor, olhavam, com alguma frequência, para os seus relógios, aproximava-se a hora de se dirigirem para o Estádio da Luz, realizava-se daí a pouco o jogo Benfica-Figo & Resto do Mundo.
O diálogo:
- Tu leste aquela entrevista do Mantorras em que disse que teve de sair da Luz na mala de um táxi por causa de uma derrota nas Antas?
- Li. E não gostei.
- Não? Porquê?
- Falta de solidariedade.
- Falta de solidariedade?
- Exactamente. Mas não só. O Mantorras foi sempre um jogador muito querido dos adeptos do Benfica, várias vezes, com a equipa à rasca para ganhar, o Mantorras entrava a escassos minutos do fim e, manco, resolvia o problema ao Benfica. Ora, os outros jogadores do Benfica deviam...
- Deviam o quê?...
- Deviam tê-lo metido numa das malas dos seus carros, nunca o deviam ter deixado sozinho na mala de um táxi.
- Epá, se calhar o Mantorras não cabia nas malas dos carros deles...
- Não me lixes, pá. Julgas que os carros deles são Citroën C1? Foi só ciumeira, ciumeira! O Mantorras, a coxear, em dois minutos conseguia fazer o que os outros, com duas pernas sãs, não faziam em 80 e tal minutos.
- Mas o Mantorras vai ter agora a sua grande festa com a camisola do Benfica vestida...
- Só que o que eu queria era o Mantorras sem lesões, a dar-me outras, não estas, grandes festas! Mesmo que, uma vez por outra, tivesse de sair da Luz na mala do carro de um companheiro. Ou de um táxi, sei lá eu!
- Estou a perceber...

Linha política

1 – O Audi, topo de gama, de cor preta, vidros fumados, para em frente à Universidade. Quando o motorista se apresta para dar a volta ao veículo para abrir a porta ao ministro Relvas, já o ministro Relvas está no passeio, nervoso, a abotoar o casaco.
- O senhor ministro desculpe...
- Não há problema, eu é que estou com muita pressa, os afazeres e as responsabilidades são cada vez maiores, não posso perder um segundo.
- E o senhor ministro quer que eu fique aqui à espera do senhor ministro ou deseja marcar uma hora para vir buscar o senhor ministro.
- Ó Ezequiel, deixa o carro mesmo aqui onde ele está, isto é uma coisa de dez a quinze minutos, não mais, vou só tirar uma licenciatura.

2 – O espectáculo arrastava-se. Na sala, aqui e ali, já se vislumbravam bocejos, face ao adiantado da hora mas também devido ao escasso entusiasmo suscitado pela actuação dos artistas, todos eles com números j (...)

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Apenas uma excepção


Linha desportiva

1 – Só ouço falar em milhões nas contratações de futebolistas dos chamados clubes grandes. É como se estivéssemos noutro país, com os cofres cheios de dinheiro, e não num País a passar por tremendas dificuldades económicas e financeiras. Mas será que o futebol português padece de uma doença chamada autismo? E ninguém de direito assume responsabilidades? Pois é, enquanto os portugueses se vão distraindo com o pontapé na chincha...

2 – O Governo Regional da Madeira diminuiu – pudera! – os subsídios de apoio aos clubes da ilha. O futebol profissional do Marítimo e do Nacional receberão 1,785 milhões de euros cada um. Rui Alves, presidente dos nacionalistas, já lançou a ameaça: vai equacionar o abandono do dirigismo desportivo antes da época começar, porque, argumenta, não há condições para manter a actividade desportiva do clube. Por isso, irá analisar juridicamente a eventual extinção do clube e respectiva SAD. Rui Alves deve ter andado a fazer contratações contando com o ovo no... pois, e agora vê-se confrontado com uma realidade para a qual devia estar minimamente preparado. Mas estou disponível para apostar que tudo isto, como uma vez disse Pinheiro de Azevedo, numa das varandas do Terreiro do Paço, «É só fumaça!»

3 – Ainda não tinha aqui falado de Rui Costa. Não do ex-futebolista e agora director desportivo e vice-presidente da SAD do Benfica, mas sim do ciclista da Movistar. Esta injustiça é agora reparada. Depois de, brilhantemente, ter ganho a Volta à Suíça, o português brilha na Volta a França. Já a meio da competição, quando a montanha começa a ditar a sua inapelável lei, separando, naturalmente, o trigo do joio, Rui Costa está no 11.º lugar e aparece sempre nos momentos marcantes de cada etapa. Seria bom continuarmos a vê-lo assim até à chegada a Paris.

Linha política

1 – Quanto mais vou sabendo, através da comunicação social, sobre a licenciatura de Miguel Relvas, mais me convenço que anda ali gato escondido com o rabo de fora. E também mais me convenço que para o exercício do poder, mesmo se efémero, para alguns o vale tudo é um trunfo que a moral tem mostrado demasiada debilidade a combatê-lo.

2 – O Parlamento abriu as suas portas para debater o Estado da Nação. Ouvi barbaridades. Mas será que os portugueses não sabem como está, infelizmente, o País? É só estarmos atentos ao que é publicado nos jornais e ao que se diz nos blocos informativos dos canais televisivos. Governo e deputados, deixem-se de conversa fiada, dediquem-se sim ao trabalho para afrouxar a corda que cada vez mais nos aperta o pescoço.

3 – Li e não queria acreditar. Uma lei que permite aos registos municipais alemães vender a empresas dados dos cidadãos, foi aprovada em 57 segundos por apenas 30 deputados democratas e cristãos, os únicos que não estavam frente à televisão a ver o Alemanha-Itália das meias-finais do Campeonato da Europa. Afinal, não é só por cá.

André Ricardo

 
Mais dia menos dia
vou tirar uma licenciatura



Linha desportiva

1 – Entre 1999 e 2003, o Real Madrid, com ele, ganhou dois títulos nacionais e duas Ligas dos Campeões (não voltou a repetir este êxito), e entre 2008 e 2012, a selecção de Espanha, com ele, ganhou dois títulos europeus e um mundial. Chama-se Vicente del Bosque. Nunca, no banco, alguém o viu a gritar com os seus jogadores ou com os árbitros, vê-se-lhe sempre a pose serena de quem sabe os terrenos que pisa e que não precisa de pisar quem quer que seja para fazer valer as suas ideias. Vicente del Bosque, um senhor do futebol a nível planetário.

2 – Julgo que toda a gente (eu incluído, pois claro) esperava mais da Itália na final do Europeu, expectativa reforçada depois da sua categórica vitória sobre a Alemanha. Mas a Itália soçobrou estrondosamente porque, primeiro, a Espanha foi-lhe superior, porque, depois, cometeu suicídio ao esgotar cedo as suas substituições, com a agravante (rude golpe para Cesare Prandelli) de Thiago Motta, cinco minutos depois de ter entrado no relvado para render Montolivo, se ter lesionado sem possibilidade de regressar ao relvado. E se jogar frente à Espanha já é complicadíssimo, então fazê-lo com dez unidades durante 40 minutos...

3 – Os clubes nacionais começaram a abrir as suas oficinas. Como sempre, nestas alturas, as promessas de excelentes temporadas – cada um com os seus objectivos, claro – a serem atiradas para os adeptos. E, como é costume também neste período, sempre a confusão a reinar em todos os plantéis. Quem fica? Quem sai? Julgo, porém, que pelo meio da euforia que já germina por aí, não vão faltar alguns amargos de boca.

4 – Depois do fracasso que foi a sua passagem pelo Chelsea, é grande e justificada a expectativa sobre o que André Villas Boas vai fazer no Tottenham. Para já, parece que o seu amigo José Mourinho lhe vai levar Modric. Depois, logo se verá...

5 – Aos 36 anos, Nuno Gomes recusou um lugar nas estruturas do futebol profissional do Benfica e do Sp. Braga e assinou contrato, por duas épocas, com o Blackburn, que vai lutar esta temporada pelo regresso ao principal escalão do futebol inglês. Nuno Gomes quer mostrar que..., velhos são os trapos. Oxalá consiga. Merece-o pela sua exemplar carreira.

6 – Não foi no meio da molhada para ver no que aquilo dava, não-senhor, aos 6.800 metros, à Carlos Lopes, arrancou, foi-se embora, isolou-se, terá pensado antes rainha um dia do que duquesa toda a vida, e pensou bem, porque, na pista do Estádio Olímpico de Helsínquia, nos dez mil metros do Campeonato da Europa, foi a primeira a cortar a meta, com meia centena de metros de avanço sobre a segunda classificada. Chama-se Dulce Félix e ganhou para Portugal o 11.º ouro em Europeus.

Linha política

1 – Depois de Sócrates com a sua licenciatura tirada a um domingo, agora temos Relvas com a sua licenciatura tirada em apenas um ano. Que grandes estudantes tem Portugal! E é certamente por isso que tem também tão bons governantes.

2 – Dom Januário Torgal não se cala. Felizmente. Agora, numa entrevista ao jornal i, lançou de novo o alerta. «No fim do pagamento da dívida vamos ter uma multidão de pobres.» Talvez precavido, o Governo ainda não reagiu, porque, quando o faz, é pior a emenda que o soneto.

3 – A maioria que compõe o Governo adiou para Setembro a discussão na especialidade dos projectos-lei mais problemáticos, como são o das mudanças no crédito à habitação, o das secretas, o do enriquecimento ilícito, o do aborto, e o da lei eleitoral autárquica. Fez bem. Nada mais aconselhável em tempo de calor que evitar o suor.

4 – Um dia destes, ao ver as notícias (não sei como ainda resisto...), num dos canais televisivos, fiquei a saber que a viagem turística entre a Régua e o Tua, em pleno Douro vinhateiro património mundial – cerca de meia centena de quilómetros para ida e regresso –, custa para um adulto 45 euros e para uma criança 25 euros. E estamos em crise! Olha se não estivéssemos!

André Ricardo

 
Sorte ou azar?


Linha desportiva

1 – Deixa-me arrepiado os jornalistas e comentadores desportivos – já para não falar nos intervenientes directos no jogo – que justificam uma eliminação com a sorte e o azar. Será sorte ou azar Portugal ter jogado 120 minutos com dez unidades porque Hugo Almeida foi zero a atacar e Nuno Oliveira só foi ao Europeu por um jeitinho que Paulo Bento fez ao Benfica? Será sorte ou azar a equipa técnica portuguesa estar sentada no banco com dezenas de papéis nas mãos e não ter – pelos vistos não tinha – um com uma estatística sobre as grandes penalidades falhadas por João Moutinho no Sporting e no FC Porto? Será sorte ou azar a escassez de versatilidade individual de Cristiano Ronaldo para, em lances de bola corrida, conseguir libertar-se com êxito das marcações – aliás, já sabiam o que ele ia fazer – que lhe foram movidas por Piqué e Sérgio Ramos? Será sorte ou azar Portugal ter optado, também neste jogo, pelos passes longos para as costas da defesa da Espanha, 90 por cento deles votados ao fracasso, quando nunca fez sair do banco Hugo Viana, dos 20 (não conto com os três eram guarda-redes) jogadores que estiveram no Europeu sem dúvida o melhor nesse tipo de lances para surpreender o adversário? Fomos eliminados por causa da sorte e do azar? Tenham paciência!

2 – Reconheço, porque inteiramente justo, que Paulo Bento engendrou a melhor táctica para emperrar o futebol feito de trocas de bola da Espanha, igualzinho ao utilizado pelo Barcelona. E não precisou, para esse efeito, de seguir as pisadas de José Mourinho. Portugal defendeu sempre a partir do meio-campo do adversário, não fez figura triste e patética com a colocação de um autocarro à frente de Rui Patrício.

3 – A Itália foi igual... à Itália. De costas voltadas para mais um escândalo interno, a squadra azurra, comandada por Cesare Prandelli, fez uma exibição individual e colectiva irrepreensível, deixou a favorita Alemanha pelo caminho e reencontra a Espanha na final de domingo. Como Michel Platini deve estar desiludido...

4 – Pedro Proença foi nomeado pela UEFA para dirigir a final do Europeu entre a Espanha e a Itália. É, até hoje, o mais importante momento para a arbitragem portuguesa, tão mal tratada no seu próprio País, porque aqui, neste cantinho à beira-mar plantado, o que interessa é ganhar, nem que seja à margem da lei que rege o futebol. Pedro Proença está de parabéns, ele que, a esta hora, deverá estar mergulhado num mar de sentimentos, os maiores certamente a alegria e o orgulho por tão alta distinção. E os meus parabéns são igualmente extensivos aos seus compatriotas companheiros de jornada, Bertino Miranda e Ricardo Santos (árbitros assistentes), Manuel de Sousa e Duarte Gomes (juízes de baliza).

Linha política

1 – Pedro Passos Coelho afirmou que «o exercício orçamental será mais exigente e difícil» do que o Governo estava à espera. Ou seja, nós, portugueses, que nos preparemos... Quando tem agendadas mais medidas de austeridade, o Governo argumenta sempre, com a maior desfaçatez, ter sido surpreendido pelo deve e haver negativo das contas do Estado. Começou logo esta desavergonhada lengalenga assim que tomou posse, prolongou-a ao pôr-se de cócoras perante os interesses económico-financeiros estrangeiros. E nós, portugueses, esperamos o quê para colocar na ordem esta pandilha?

2 – Ricardo Rodrigues, deputado do Partido Socialista, foi condenado por atentado à liberdade de imprensa. O caso remonta a Maio de 2010, quando Ricardo Rodrigues, então vice-presidente da bancada do PS, se apoderou de dois gravadores de jornalistas da revista Sábado. Tenho as minhas dúvidas que a sentença fosse a mesma se o Partido Socialista estivesse agora a governar... Veja-se, por exemplo, a decisão da ERC relativamente a Miguel Relvas.

3 – «A troika o que faz é ganhar o seu dinheirinho – e os seus membros ganham razoavelmente bem – e garantir que os mercados continuem a mandar nos Estados e que os Estados se transformem em protectorados. E estou perplexo pela forma como Portugal tem permitido que uns tecnocratas que ganham rios de dinheiro decidam o seu futuro.» Não foi Jerónimo de Sousa, tão-pouco Francisco Louça, que fizeram estas importantes e não menos oportunas denúncias. Foi Mário Soares. Mas o Partido que ele ajudou a fundar já não o ouve. Borrifa-se para as suas incómodas opiniões. António José Seguro e a sua trupe de malabaristas do aparelho do partido só estão interessados em ganhar as próximas eleições legislativas para substituir o PSD e o CDS no poder. E vão assim assistindo, de cadeirinha, à queda da maioria dos portugueses nas profundezas da miséria.

André Ricardo

 
 
 
 
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